O PECADO MORA AO LADO

Nunca fui de caminhar por entre os prédios comerciais da quadra onde trabalho. Primeiro, para não encontrar nada de interessante e, aí voltar aos meus dias de consumidora compulsiva. Segundo, que no horário vago, das 12h às 14h, o sol não é dos melhores amigos da pele. Mas é inverno e os dias não estão escaldantemente quentes, e me coloquei a descobrir o que o boulevards ofereciam. Aí me toquei que no subsolo de um dos prédio tem um sebo, que já visitei umas duas vezes, e até encontrei dois livros bacanas (nada de espetacular, mas boa literatura com preço honesto). Me lembrei que o lugar era meio desorganizado, sem padrão na disposição dos volumes. O cliente contava única e exclusivamente com a boa memória do proprietário, para encontrar alguma obra. O caso é que a lojinha estava fechada (possivelmente por conta do horário de almoço). Mas a minha frustração não durou mais de três segundos, quando percebi de duas portas ao lado, um senhor estava a organizar prateleiras com livros, CDs e DVDs... usados. Entrei e pergutei: "Não é mesmo sebo dali, é?" - "Não, é outro! Estou ajeitando as coisas para abrir a loja. Ainda não abrimos oficialmente..." - Puxa... tudo tão organizadinho (deu para perceber isso em 20 segundos olhando para as prateleiras, com volumes disposto em ordem alfabética pelo sobrenome do autor, e por gênero... e eu ia ter que esperar? "Mas se você quiser dar uma olhada, fique à vontade", disse, cheio de gentileza o tiozinho, equanto empilhava pequenos embrulhos de papel pardo sobre a mesa (Algo me dizia que um local onde se embrulha livros com papel pardo, é um lugar onde se respeita livros! Coisa mais fofa!). Na prateleira de DVDs coisas raras, que iam de Chaplin a Fellini, além de shows muito bacanas. "Ótimo", pensei, opções às grandes lojas, únicos lugares com coisa do gênero, a preço acessível. Mas eu queria mesmo era testar as possibilidades literárias do lugar e resolvi testar o acervo:
"Então, tem um livro que quero ler há muito, mas a única edição no mercado é uma comemorativa com preço proibitivo..."Lavoura Arcaica"?
"Ah, sim aquela edição belíssima de capa dura, vermelha, com o título numa plaquinha e marcador em fita de cetim, não é?" Isso dito com olhos brilhando..."Essa é difícil encontrar em sebo. Quem teria coragem de se desfazer de algo assim? Mas tenho uma edição mais humilde, mas excelente para uma primeira leitura."
"TEM?"
"Sim, mas na caixa ainda, em casa, porque não tive tempo de trazer tudo para cá. Mas posso trazer pra você. R$ 12"
"Quando mesmo que você pode trazer o MEU livro? " Resolvi fazer teste mais difícil: dois livros fora de catálogo
"E o senhor tem "O Pêndulo de Focault" do Eco?" - Antes de eu terminar o "Eco..."
"Esse volume aqui é muito bom. Veja só. Está novinho"
"Sim, sim... ótimo. Mas tem outro que eu não encontro em lugar algum, não é editado no Brasil há anos. Wirginia Woolf. "Rumo ao Farol"...
"Acho que você vai gostar desse aqui. Capa dura, sobre capa acetinada, papel branco... e me parece nunca ter sido lido. Não tem dobra de primeira página..."
"Ok, o que senhor tem de Shakespeare?"
"Toda aquela preteleira ali. Você prefere textos em português ou no inglês original?" Neste momento eu tentava, em vão, disfarçar a minha empolgação, mas vi que, ajoelhada na frente da tal prateleira com cara de besta, não conseguiria mesmo...
"Tenho algo que estava esperando por você. Essa edição em inglês arcaico, editada por Oxford, toda sublinhada... década de 50, acho..."
Pára TUDO!
Pessoas, juro, que se esse tiozinho em questão não fosse um senhor casado, futuro pai de trigêmeos (sim, porque além de vender livro, ele sabe fazer muita criança!), eu me oferecia de esposa à criatura!
Ah, a loja fica a dois minutos de caminhada do meu escritório (onde fico o dia todo, cinco dias por semana)!
Sim, eu vou morar lá e sim, eu vou à falência. E tenho dito!