FADO TORDO

Já contei aos quatro ventos da minha paixão pelo fado, o tristonho e lindo ritmo português, que me leva ao delírio, desde a primeira vez que o ouvi com atenção, lá em 1997. Desde então coleciono as canções cheias de sofreguidão, “malmequeres” e lágrimas (que, juram os especialistas, são o que salgam o oceano, pela tristeza do povo que aprendeu a conviver com a sensação de que perdeu algo para o mar). Daí, pessoas como Teresa Salgueiro, Amália Rodrigues, Cristina Branco, e Mariza estão sempre a freqüentar minhas caixas de som em casa, no trabalho, no carro. Para minha surpresa e total deleite, descobri dia desses que a Embaixada de Portugal promoveria um show da moça Mariza (uma moçambicana, criada em Lisboa, que tem o fado na veia, na voz e na alma), por aqui em Brasília. Com entrada franca. Desespero total foi ver o show divulgado em absolutamente todos os veículos de imprensa desta cidade. Com a informação “gratuito” em letras garrafais, negrito, com setas. Já imaginaram, né? Todos os “caçadores” de programas “O800” estariam lá, horas antes para pegar o ingresso do show da moça, que eu adoro, e talvez, a maioria nem conheça. Em operação de guerra total, catei Alê, a Super-Irmã, sempre disposta a dar aquela mãozinha em tarefas complicadas, e rumamos para o campo de batalha, na tentativa de pegar dois pares de ingresso (limite de 2 por pessoa), para viabilizar a ida da escriba aqui, o casal Lobo e Mr. F. É óbvio que tinha uma fila do tamanho da Esplanada dos Ministérios no local. Pernas pra que te quero, vamos à fila, de dedinhos cruzados, e fazendo orações a santos, anjos, gnomos e orixás para não acabar os convites até chegarmos lá, no destino. A coisa ia toda muito rápida, quando descobrimos que o pessoal do teatro já tinha separado todos os ingressos em pares e iam distribuindo para as criaturas, na ordem de chegada. Parecia tarefa de gincana de colégio: “Próximo! Aqui! Próximo!Vamos, vamos”... Conseguimos! Yuppieeeeee!!! E ainda deu tempo de visualizar o bolinho de ingressos na mão dos mocinhos bilheteiros. O cálculo visual era de que dava para arriscar uma segunda entrada na fila e garantir um para dupla de amigos que não chegaria a tempo no local, e que era igualmente fã da D. Mariza. Corre para o final da fila. Mas aí tínhamos que decidir quem voltaria, com menos risco dos bilheteiros reconhecerem uma das já agraciadas. Momento de reflexão: quem era a mais discreta das duas? Vejamos: Alê, loira, de cabelos de ondas e cachos até quase a cintura, blusa esvoaçante com estampa de oncinha, caça jeans e uma pilha gigante de livros de direito na mão. Eu, com um blusa rosa pink, sandálias plataformas (que me “promovem” dos naturais 1m73 para abusados 1m84), calça jeans, e na cabeça, um lenço de seda amarelo, com estampa de flores vermelhas e rosa pink, com franjas rosa... pink. Após segundos de dúvida mortal, decidimos que Alê estava num momento menos drag que eu. E lá foi ela na fila que corria e conseguiu os últimos convites para a dupla de amigos ausentes! Ufa! E sábado tem show de fado! É tirar o xale português do armário e preparar os lenços de papéis, ora pois! Depois eu conto como foi o show, ok?